LANÇA DA SILVA –
Um trabalhador do nosso tempo
A
notícia da morte do Lança atingiu-me como um raio e fez-me refletir
sobre a nossa (minha) mortalidade. Infelizmente, a triste notícia só
chegou ao meu conhecimento no dia 23 de outubro, depois de já terem
ocorrido a morte e o funeral de Lança da Silva. Não é inócuo
tomar conhecimento do desaparecimento de um companheiro com quem
atravessámos e convivemos durante uma parte das nossas vidas.
O
José Luís Lança da Silva era um alentejano que conheci pela
primeira vez quando fui trabalhar para o Departamento de
Contabilidade do Banco Nacional Ultramarino (BNU). Mais tarde,
participámos ativamente no Grupo de Teatro, recentemente criado
nesse mesmo Banco. Mas as atividades do Lança não se limitavam às
atividades sociais. A sua participação sindical e política foi
relevante.
Recordo
aquele jovem (nem trinta anos tinha) que, por ocasião das
manifestações contra a prisão do Presidente da Direção do
Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SBSI), barrava
simbolicamente (e não só), formando uma corrente humana, a entrada
dos colegas no BNU que, por medo (estávamos em 1973, antes do 25 de
Abril), queriam entrar, não respeitando a greve clandestina (naquela
época tudo era clandestino) e simbólica.
Greve
simbólica porque foi realizada em sucessivos dias, por períodos
também sucessivos de 5, 10 e 15 minutos após o encerramento para
almoço, num tempo em que os bancos encerravam para essa refeição.
Alguns jovens de hoje dirão, ironicamente, que 5, 10 ou 15 minutos
não eram nada. Só que esses 5, 10 ou 15 minutos podiam,
especialmente para aqueles que davam a cara, provocar o despedimento,
a prisão arbitrária, a tortura e até o impedimento prático de
trabalhar.
Mas
o Lança, e outros como ele, sentiam ser seu dever demonstrar
solidariedade para com um companheiro preso por defender os direitos
dos bancários, como fez Daniel Cabrita.
Recordo
a participação deste companheiro nas manifestações ilegais da
época (1973, antes do 25 de Abril), com desfile do Rossio ao
Terreiro do Paço, pela Rua do Ouro, em Lisboa, em defesa de um
Contrato Coletivo de Trabalho para os Bancários que os defendesse,
rasgando publicamente um outro contrato que lhes queria ser imposto
por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo da Ditadura.
Recordo
as correrias pelas ruas da Baixa Lisboeta, fugindo às cargas
policiais, capitaneadas pelo celebérrimo Maltês, destinadas a
dispersar as manifestações dos bancários.
Recordo
a distribuição dos comunicados clandestinos que todos (ou quase
todos) nós, no setor bancário, sabíamos que era ele quem fazia,
mas fingíamos que não sabíamos.
Em
todas estas ações, Lança da Silva esteve presente.
Mas,
já depois do 25 de Abril, já depois do Dia da Liberdade, o nosso
companheiro Lança da Silva não cruzou os braços. Em termos
estritamente políticos, militou no MDP (Movimento Democrático
Português) e pertenceu aos CDR (Comités de Defesa da Revolução).
Em termos sindicais, foi Delegado Sindical, candidatou-se e foi
eleito para o Secretariado Sindical do BNU no âmbito do sindicato
SBSI. Em termos sociais, foi dirigente do Grupo Desportivo do BNU e
participou na organização de uma iniciativa no Centro de Férias
que o BNU possuía, com o objetivo de obter a gestão daquele espaço
pelos trabalhadores. A sua presença nos jantares de convívio dos
Trabalhadores do Departamento de Contabilidade do BNU foi também uma
constante que importa assinalar.
Gostaria
de ter tempo e memória para aqui poder reproduzir mais e melhor da
vida pública de Lança da Silva. Quanto à sua vida privada, apenas
me sinto autorizado a falar dos muitos convívios em que também tive
o prazer de participar.
A
memória de Lança da Silva permanecerá viva, como a de um homem
ativo, participativo e comprometido com causas, enquanto aqueles que
o conheceram o continuarem a recordar como merece ser recordado.
Obrigado pelos teus
contributos,
que
tornaram melhor o nosso tempo.