sexta-feira, 23 de outubro de 2026

LANÇA DA SILVA – Um trabalhador do nosso tempo


 LANÇA DA SILVA – Um trabalhador do nosso tempo


A notícia da morte do Lança atingiu-me como um raio e fez-me refletir sobre a nossa (minha) mortalidade. Infelizmente, a triste notícia só chegou ao meu conhecimento no dia 23 de outubro, depois de já terem ocorrido a morte e o funeral de Lança da Silva. Não é inócuo tomar conhecimento do desaparecimento de um companheiro com quem atravessámos e convivemos durante uma parte das nossas vidas.

O José Luís Lança da Silva era um alentejano que conheci pela primeira vez quando fui trabalhar para o Departamento de Contabilidade do Banco Nacional Ultramarino (BNU). Mais tarde, participámos ativamente no Grupo de Teatro, recentemente criado nesse mesmo Banco. Mas as atividades do Lança não se limitavam às atividades sociais. A sua participação sindical e política foi relevante.

Recordo aquele jovem (nem trinta anos tinha) que, por ocasião das manifestações contra a prisão do Presidente da Direção do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SBSI), barrava simbolicamente (e não só), formando uma corrente humana, a entrada dos colegas no BNU que, por medo (estávamos em 1973, antes do 25 de Abril), queriam entrar, não respeitando a greve clandestina (naquela época tudo era clandestino) e simbólica.

Greve simbólica porque foi realizada em sucessivos dias, por períodos também sucessivos de 5, 10 e 15 minutos após o encerramento para almoço, num tempo em que os bancos encerravam para essa refeição. Alguns jovens de hoje dirão, ironicamente, que 5, 10 ou 15 minutos não eram nada. Só que esses 5, 10 ou 15 minutos podiam, especialmente para aqueles que davam a cara, provocar o despedimento, a prisão arbitrária, a tortura e até o impedimento prático de trabalhar.

Mas o Lança, e outros como ele, sentiam ser seu dever demonstrar solidariedade para com um companheiro preso por defender os direitos dos bancários, como fez Daniel Cabrita.

Recordo a participação deste companheiro nas manifestações ilegais da época (1973, antes do 25 de Abril), com desfile do Rossio ao Terreiro do Paço, pela Rua do Ouro, em Lisboa, em defesa de um Contrato Coletivo de Trabalho para os Bancários que os defendesse, rasgando publicamente um outro contrato que lhes queria ser imposto por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo da Ditadura.

Recordo as correrias pelas ruas da Baixa Lisboeta, fugindo às cargas policiais, capitaneadas pelo celebérrimo Maltês, destinadas a dispersar as manifestações dos bancários.

Recordo a distribuição dos comunicados clandestinos que todos (ou quase todos) nós, no setor bancário, sabíamos que era ele quem fazia, mas fingíamos que não sabíamos.

Em todas estas ações, Lança da Silva esteve presente.

Mas, já depois do 25 de Abril, já depois do Dia da Liberdade, o nosso companheiro Lança da Silva não cruzou os braços. Em termos estritamente políticos, militou no MDP (Movimento Democrático Português) e pertenceu aos CDR (Comités de Defesa da Revolução). Em termos sindicais, foi Delegado Sindical, candidatou-se e foi eleito para o Secretariado Sindical do BNU no âmbito do sindicato SBSI. Em termos sociais, foi dirigente do Grupo Desportivo do BNU e participou na organização de uma iniciativa no Centro de Férias que o BNU possuía, com o objetivo de obter a gestão daquele espaço pelos trabalhadores. A sua presença nos jantares de convívio dos Trabalhadores do Departamento de Contabilidade do BNU foi também uma constante que importa assinalar.

Gostaria de ter tempo e memória para aqui poder reproduzir mais e melhor da vida pública de Lança da Silva. Quanto à sua vida privada, apenas me sinto autorizado a falar dos muitos convívios em que também tive o prazer de participar.

A memória de Lança da Silva permanecerá viva, como a de um homem ativo, participativo e comprometido com causas, enquanto aqueles que o conheceram o continuarem a recordar como merece ser recordado.


Obrigado pelos teus contributos,

que tornaram melhor o nosso tempo.

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